

Pacientes com fatores de risco para demência, como diabetes e hipertensão, apresentaram redução de 48% no ritmo do declínio cognitivo após três anos usando aparelho auditivo, segundo resultados de um estudo randomizado inédito.
Os achados do estudo ACHIEVE corroboram as evidências de que o controle da perda auditiva pode ser uma medida de saúde pública global extremamente importante para prevenir a demência.
“Esses achados são evidências convincentes de que o tratamento da perda auditiva é uma ferramenta poderosa para proteger a função cognitiva em idosos e, possivelmente, retardar o diagnóstico de demência em longo prazo”, disse em um comunicado à imprensa o primeiro autor do estudo, Dr. Frank Lin, vinculado à Johns Hopkins University School of Medicine e à Bloomberg School of Public Health, ambas nos Estados Unidos.
No entanto, ele acrescentou: “Os benefícios cognitivos do tratamento da perda auditiva relacionada à idade tendem a variar conforme o risco individual de declínio cognitivo”.
Os achados foram apresentados na Alzheimer’s Association International Conference (AAIC) de 2023 e publicados on-line em 17 de julho no periódico Lancet.
Um problema frequente
A perda auditiva relacionada à idade é extremamente comum, afetando dois terços dos adultos com mais de 60 anos. O problema pode ser tratado com o uso de aparelhos auditivos e assistência audiológica. Estudos observacionais anteriores já sugeriram que a correção do comprometimento da audição pode reduzir o declínio cognitivo e a demência.
No entanto, os pesquisadores apontaram que essas pesquisas são frequentemente limitadas por fatores de confusão residuais e pela falta de informações sobre a duração e as características da correção auditiva.
Com o objetivo de obter evidências mais robustas sobre o papel dos aparelhos auditivos na preservação da cognição, os pesquisadores conduziram o ensaio randomizado ACHIEVE, que recrutou 977 idosos com idades entre 70 e 84 anos em quatro locais nos EUA. Todos os participantes tinham diagnóstico de perda auditiva e não tinham recebido tratamento para o quadro; nenhum deles tinha comprometimento cognitivo importante.
Os participantes foram recrutados a partir de duas populações em cada local: uma composta por idosos que participam atualmente do estudo Atherosclerosis Risk in Communities (ARIC), que busca compreender melhor a saúde cardiovascular e cognitiva, e outra de voluntários saudáveis (em geral mais saudáveis do que os participantes do ARIC).
No início do estudo, os participantes tinham perfis auditivos semelhantes (tom puro médio de 39,4 dB) e não apresentavam sinais de comprometimento cognitivo importante.
Entretanto, em comparação com os participantes saudáveis, os indivíduos provenientes do estudo ARIC tinham mais chances de serem mais velhos, do sexo feminino, negros, e de morarem sozinhos, terem menor escolaridade e renda mais baixa; eles também tinham mais chances de apresentar diabetes e hipertensão.
Os pesquisadores selecionaram aleatoriamente todos os participantes para serem submetidos a uma intervenção auditiva ou para participarem do grupo controle, que recebeu formação em saúde para idosos.
Possíveis mecanismos
Os participantes do grupo de intervenção auditiva passaram por quatro sessões de uma hora de duração com um fonoaudiólogo a cada intervalo de uma a três semanas, receberam aparelhos auditivos bilaterais adaptados conforme prescrição, foram orientados regularmente sobre o uso dos dispositivos e aprenderam estratégias de reabilitação auditiva.
A intervenção realizada no grupo controle foi desenhada de forma a corresponder à intensidade da intervenção auditiva. Os participantes desse grupo se encontraram regularmente com um educador e fizeram o curso “10 chaves para um envelhecimento saudável“, um programa interativo de educação em saúde para idosos com 65 anos.
O desfecho primário foi a mudança do escore fatorial padronizado de cognição global três anos após o início do estudo. As pontuações foram obtidas a partir de uma bateria anual de testes neurocognitivos detalhados. Os testes realizados eram os seguintes: evocação tardia de palavras, substituição de símbolos por dígitos, aprendizagem incidental, teste de trilhas (partes A e B), memória lógica, teste de extensão de dígitos em ordem reversa, teste de nomeação de Boston e teste de fluência verbal (com nomeação de animais).
Considerando a população total do estudo, não houve diferença significativa nas alterações cognitivas globais entre o grupo controle (educação em saúde) e o grupo que recebeu intervenção auditiva (diferença de 0,002; intervalo de confiança [IC] de 95% de −0,077 a 0,081; p = 0,96).
No entanto, nos pacientes provenientes do estudo ARIC, houve uma redução significativa de 48% do declínio cognitivo no grupo que usou aparelhos auditivos, em comparação com o grupo controle (diferença de 0,191; IC 95% de 0,022 a 0,360; p = 0,027). Na população saudável, não houve diferenças significativas nos quadros cognitivos dos dois grupos.
Também não foram vistas diferenças entre os grupos na coorte combinada com relação aos desfechos cognitivos secundários de mudanças na função executiva, linguagem e memória.
Nos indivíduos do estudo ARIC, a intervenção auditiva foi significativamente associada a uma desaceleração do declínio na função de linguagem em comparação aos controles (p = 0,012). Além disso, não foram observados eventos adversos inesperados relacionados à participação no estudo.
Os achados confirmam pesquisas anteriores que mostraram que o tratamento da perda auditiva em idosos deve ser acrescentado às estratégias disponíveis para redução do risco de demência, observaram os pesquisadores.
Um novo estudo de acompanhamento, vinculado à população original do ACHIEVE, está em andamento para analisar os efeitos de longo prazo da intervenção auditiva sobre a cognição e em outros desfechos.
Os mecanismos envolvidos na associação entre a perda auditiva não tratada e o declínio cognitivo ainda são desconhecidos, mas existem várias explicações hipotéticas. Segundo uma delas, a deficiência auditiva poderia acelerar a atrofia cerebral ou fazer com que o cérebro trabalhe excessivamente, o que poderia ter um efeito negativo sobre a cognição. Outra possibilidade é que os indivíduos com perda auditiva se tornem menos engajados socialmente, e essa falta de estímulos poderia gerar atrofia cerebral.
Uma limitação do estudo foi a impossibilidade de realização do cegamento, o que pode ter enviesado os resultados. Além disso, dois dos dez testes neurocognitivos continham apenas estímulos auditivos, e os pacientes do grupo controle com perda auditiva não tratada podem não ter alcançado um desempenho tão bom nessas avaliações por não terem compreendido corretamente os estímulos.
Resultados são animadores
Comentando para o Medscape, o Dr. Percy Griffin, Ph.D., diretor de divulgação científica da Alzheimer’s Association, disse que os resultados são “animadores” e justificam uma investigação mais aprofundada.
“Embora o estudo não tenha sido tão bem-sucedido quanto esperado pelos pesquisadores, ele começa a nos dar pistas sobre algumas subpopulações que precisam ser acompanhadas.”
A audição é importante para a realização de atividades cotidianas, não apenas para a cognição, disse o Dr. Percy.
No entanto, ele observou que o estudo avaliou apenas um aspecto do comportamento/estilo de vida: o comprometimento auditivo. “Precisamos analisar vários aspectos diferentes, com estudos maiores e mais representativos.”
O estudo foi financiado pelos National Institutes of Health dos EUA. O Dr. Frank Lin informou o recebimento de bolsas de pesquisa dos National Institutes of Health e da Eleanor Schwartz Charitable Foundation; remuneração como consultor da Frequency Therapeutics e da Apple; remunerações por perícia e participação em conselho científico da Fondation Pour L’Audition e Sharper Sense; atuação como membro voluntário do conselho do Access HEARS; doações da Sonova/Phonak para a Johns Hopkins University para obtenção de tecnologias auditivas usadas no estudo; e um cargo de diretor em um centro de pesquisa em saúde pública financiado parcialmente por uma doação filantrópica da empresa Cochlear para a Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health.
Alzheimer’s Association International Conference (AAIC) 2023. Apresentado em 18 de julho de 2023.
Lancet. Publicado on-line em 17 de julho de 2023. Abstract
Este conteúdo foi originalmente publicado no Medscape